Imagem em destaque: registros de Lygia Clark realizando a ação Caminhando (1964)
Uma explicação simplificada seria: Arte de Ação é uma nomenclatura descolonizada para práticas em arte não objetual baseada em ação realizadas no contexto dos países de línguas latinas, englobando performances, happenings, intervenções urbanas, dentre outras experiências não objetuais realizadas por artistas visuais ao longo da História da Arte. Abaixo, um texto um pouco mais detalhado
Performance, Happening e Arte de Ação
(Luana Marchiori Veiga)
Extraído de: “Performance [entre] cinema: passagens e atravessamentos entre artes em busca das poéticas da presença”. Tese de doutorado. 2016. Disponível em: <http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/321130>
Seria interessante, antes de prosseguir, esclarecer algumas questões terminológicas. No contexto desta tese utilizaremos os termos performance, happening e arte de ação. Apesar de não serem sinônimos, dizem respeito ao mesmo campo de produção artística. Atualmente a palavra performance tem sido utilizado amplamente para denominar este campo, mas a utilização de cada termo varia de artista para artista, e também de acordo com o contexto em que é praticado, e a escolha de um ou de outro termo indica essa especificidade de contexto.
Para uma definição inicial, transcrevo a seguir a de Josefina Alcázar, que resume
de forma esclarecedora:
[…] el performance es una forma híbrida que se nutre del arte
tradicional (como el teatro, las artes plásticas, la música, la poesía y la
danza), del arte popular (como la carpa, el cabaret, el circo) y de
nuevas formas de arte (como el cine experimental, el videoarte, la
instalación y el arte digital). Pero también se nutre de fuentes
extraartísticas como la antropología, el periodismo, la sociología, la
semiótica y la lingüística; así como de las tradiciones populares
vernáculas (merolicos, fiestas populares, procesiones). El performance
es, pues, un arte liminal, una arte de los intersticios, es el arte
transdisciplinário por excelencia. (ALCÁZAR, 2014, p. 75). 1
As experiências de arte não objetual no campo das artes plásticas ou visuais podem ser encontradas ainda no início do século XX no contexto das vanguardas históricas, mas sem uma denominação geral. Cada artista ou grupo intitulava suas experiências como queriam – como o brasileiro Flávio de Carvalho, que chamou suas ações realizadas a partir da década de 1930 justamente de Experiências.
O termo happening foi adotado após sua utilização como título de um trabalho do estadunidense Allan Kaprow em 1959 – os 18 happenings in 6 parts. Como o termo designa genericamente um acontecimento, foi adotado amplamente na década de 1960. O termo performance, no idioma inglês, designa a realização de alguma coisa, e pode inclusive ser compreendido como desempenho. No caso do happening, a performance é a sua realização, e o performer é quem realiza, independentemente se é o artista ou o participante, como podemos ver nas afirmações do próprio Kaprow, que sugere: “perform the happening once only”2 (KAPROW, 1966, p.4) ou “the performance of a Happening should take place over several widely spaces”3 (KAPROW, 1965, p. 261). De modo geral, considera-se o happening como uma prática artística que envolve a participação de um grupo de pessoas, com algum grau de abertura para atividades imprevistas.
A partir da década de 70, o termo performance passou a funcionar de maneira mais específica, designando ações realizadas por artistas, com ou sem participação do público, mas menos abertas do que os anteriores happenings. Ao mesmo tempo, os happenings passaram a ser integrados às práticas de teatro de vanguarda. Isso levou alguns teóricos a realizarem tentativas de classificações e categorizações das diferenças, o que não aparenta relevância para os artistas experimentais. Podemos perceber, nos textos de origem estadunidense, que o termo performance leva os teóricos à inclusão de atividades ligadas à indústria do entretenimento, como apresentações de comediantes e de espetáculos midiáticos. Por outro lado, na antropologia o termo também é utilizado para designar estudos de atividades ligadas à ritos ou a práticas sociais cotidianas (CARLSON, 2010).
A partir da metade dos anos 1970 o termo performance passou a ser utilizado genericamente para denominar todo o campo da arte de ação, incluindo os happenings, os eventos Fluxus, as intervenções urbanas, etc., cumprindo um papel utilitário de consenso. (PEIDRO, 2007). O teórico argentino Miguel Angél Peidro faz a ressalva de que há muita oposição a esse uso generalizante, uma vez que o termo em inglês é também utilizado para as “artes espetaculares”, o que amplia em demasia sua utilização. Peidro também procura definir a arte de ação:
La acción tiene como material u objeto la vida, en general no se
especializa, no tiene como material o materia de trabajo unos colores,
una piedra, unos dígitos, sino la acción en sí misma y de esto se dieron
cuenta los artistas que entonces cualquier acción puede ser tomada, al
igual que cualquier espacio y cualquier tiempo, y se plantean
problemas o paradojas pues los límites con acciones, espacios y
tiempos de la vida se vuelven imprecisos o más bien difíciles de
delimitar.4 (PEIDRO, 2007).
Entre os artistas hispanófonos se utiliza mais o termo arte acción, por seu uso mais geral, que abarca performances, happenings e quaisquer outras denominações que os artistas desejem. Possivelmente trazem a herança dos acionistas vienenses. Muitos artistas contemporâneos falam em accionar, o que nos parece interessante por trazer um duplo sentido, o de agir e também de acionar, no sentido de ligar ou disparar. Adotaremos o termo
ao longo desta tese, considerando o duplo sentido descrito.
O teórico espanhol Juan P. W. Ortega (2009) descreve as amplas origens da arte de ação, desde os happenings e performances estadunidenses, passando pelo situacionismo e acionismo europeus, assim como a arte processual, a body art, as artes da terra – land art, earth works -, entre outras. Tais práticas artísticas, segundo Ortega, tinham em comum suas estratégias que recusavam a produção de objetos e visavam a transformação do contexto físico e social. Ortega explica que o termo performance contém uma confusão semântica, pois designa tanto a prática artística contemporânea como também o ato tradicional de representação, no contexto teatral, assim como tem relação com o adjetivo performativo, que está ligado ao campo genérico das funções da comunicação.
El equívoco se establece por cuanto la pretensión de efectiva
transformación del mundo que se propone como objetivo la creación
artística viene siendo designada función performativa desde que John
L. Austin la describiera como función lingüística en 1961. Así, en
cierto modo, performance en cuanto representación se situaría
precisamente en las antípodas de lo performativo como intervención
efectiva sobre la realidad.5 (ORTEGA, 2009)
Itzel Rodríguez Mortellaro, por sua vez, reafirma que a arte de ação recusa a produção de mercadorias inseridas no mercado de arte e de objetos para serem contemplados ou possuídos. Seria um ato humano realizado num espaço e num tempo determinados, e que não são representação de nada, mas a vida presente. Mortellaro também descreve a arte de ação como sendo uma inter relação das artes, como “mixed media”: “lo plástico, acústico, visual se mezclan, oratoria, plástica, body art, etc.“ (MORTELLARO, 2007).
A teórica estadunidense Kristine Stiles também adota o termo Action Art por seu caráter mais amplo e por trazer o sentido de uma ação mais direta, inclusive politicamente. Para Stiles os trabalhos de arte performática realizados após os anos 1980 teriam se tornado mais conceituais e menos engajados no sentido físico da transformação, seja corporal, de materiais ou das condições sociais (STILES, 1998).
Perhaps the homogeneity of the ubiquitous term Performance Art,
which now generically designates, administers, and manages a wide
range of cultural actions, […] also indicates how conceptually
removed culture has become from an awareness of its own conditions
of, and potential for, action.6 (STILES, 1998, p. 229).
Atualmente percebemos um uso genérico do termo performance abarcando as artes não objetuais focadas na ação de um modo amplo. A palavra já é familiar para o público em geral, inclusive por sua popularização por artistas muito famosos – como Marina Abramovic. Porém, seu uso generalizado é questionado por muitos outros artistas e teóricos, tanto pelas confusões semânticas como por ter se tornado uma categoria institucional, o que aniquilaria seu caráter experimental. O termo happening atualmente tem uma aderência a modos de teatro contemporâneo pouco roteirizados e com participação do público, porém, quando cunhado, dizia respeito a experimentações variadas, acontecimentos ou eventos. Arte de ação, como exposto, é bastante utilizado pelos artistas e teóricos de língua hispânica, e também abarca um contexto bem amplo.
NOTAS
1 A performance é uma forma híbrida que se nutre da arte tradicional (como o teatro, as artes plásticas, a música, a poesia e a dança), da arte popular (como o teatro mambembe, o cabaré, o circo) e de novas formas de arte (como o cinema experimental, a videoarte, a instalação e a arte digital). Mas também se nutre de fontes extra artísticas, como a antropologia, o jornalismo, a sociologia, a semiótica e a linguística, assim como das tradições populares vernaculares (os pregões dos vendedores ambulantes, festas populares, procissões). A performance é, portanto, uma arte limítrofe, uma arte dos interstícios, é a arte transdisciplinar por excelência. (Tradução da Autora).
2 Realize o happening apenas uma vez (Tradução da Autora).
3 A realização de um happening deve acontecer em vários espaços separados (Tradução da Autora).
4 A ação tem como material ou objeto a vida em geral, não se especializa, não tem como material ou matéria de trabalho umas cores, uma pedra, uns números, senão a ação em si mesma e os artistas se deram conta disso, que portanto qualquer ação pode ser tomada, assim como qualquer espaço e qualquer tempo, e se colocam problemas ou paradoxos pois os limites com ações, espaços e tempos da vida se tornam imprecisos ou muito mais difíceis de delimitar. (Tradução da Autora).
5 O equívoco se estabelece por conta de que a pretensão de efetiva transformação do mundo que propõe como objetivo a criação artística vem sendo designada como função performativa, desde que John L. Austin a descreveu como função linguística em 1961. Assim, de certo modo, performance enquanto representação se situaria precisamente nas antípodas do performativo como intervenção efetiva sobre a realidade. (Tradução da Autora)
6 Talvez a homogeneidade do termo ubíquo Arte da Performance, que atualmente genericamente designa, administra e gerencia uma ampla gama de ações culturais […] também indica o quão conceitualmente separada a cultura se tornou de uma consciência de suas próprias condições de e potencial para a ação. (Tradução da Autora).
REFERÊNCIAS:
ALCÁZAR, Josefina. Performance: una arte del yo: autobiografía, cuerpo e identidad. México: Siglo XXI Editores, 2014.
CARLSON, Marvin. Performance, uma introdução crítica. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 2010.
KAPROW, Allan. How to make a happening. 1966. Disponível on-line em: http://primaryinformation.org/files/allan-kaprow-how-to-make-a-happening.pdf Acesso em 01, junho, 2015.
KAPROW, Allan. Assemblages, environments and happenings. 1965. Disponível on-line em: <http://web.mit.edu/jscheib/Public/performancemedia/kaprow_assemblages.pdf> Acesso em 16, abril, 2015.
MORTELLARO. Itzel Rodríguez. Arte de acción. 2007. Disponível on-line em: <http://performancelogia.blogspot.com/2007/01/arte-de-accin-itzel-rodrguez-mortellaro.html> Acesso em 08, outubro, 2015.
ORTEGA, Juan Pablo Wert. Sobre el arte de acción en España. 2006. In: ABELLÁN, Joan [et al.]. ARTES de la escena y de la acción en España, 1978-2002. Cuenca: Ediciones de la Universidad de Castilla – La Mancha, 2006. Disponível on-line em: <http://archivoartea.uclm.es/textos/sobre-el-arte-de-accion-en-espana/> Acesso em 02, setembro, 2015.
PEIDRO, Miguel Angel. El Arte de Acción. 2007. Disponível on-line em: <http://performancelogia.blogspot.com.br/2007/08/el-arte-de-accin-miguel-angel-peidro.html> Acesso em 08, agosto, 2015.
STILES, Kristine. Uncorrupted Joy: International Art Actions. In: SCHIMMEL, Paul. Out of Actions: Between Performance and the Objects 1949-1979. . New York / London: Thames and Hudson. 1998.